Meu nome é Rafael, eu trabalho no site de acompanhantes Garota Linda em Belo Horizonte, e depois de alguns anos escutando histórias e conhecendo todos os tipos de garotas que vocês podem imaginar, acho que tenho algumas coisas a dizer sobre a prostituição no Brasil.

O Brasil é um país que permite a prostituição mas proíbe que ela se organize, e as maiores vítimas dessa proibição são as mulheres.

Sejamos francos, essa é a profissão mais antiga do mundo, e ela não vai deixar de existir agora, por causa do moralismo de sociedades como a nossa, pelo contrário, o mercado do sexo pago nunca foi tão amplo como agora, e ele continua crescendo.

São muitas as razões que levam as meninas a trabalhar como acompanhantes e garotas de programa, e não se engane nem caia em um dos clichês comuns que dizem que elas foram estupradas, abusadas fisicamente ou que são forçadas a isso, claro que esses casos existem mas acontecem cada vez em menor quantidade.

Adriana Tavares

 

As acompanhantes de hoje escolhem essa profissão como escolhem qualquer outra, de forma consciente, planejada e objetiva. Mas não é exatamente esse o tema do texto. Voltemos ao assunto principal.

Para as acompanhantes, a violência vem da ilegalidade

Quando uma mulher decide trabalhar como garota de programa ela não pode ir até uma empresa que emprega acompanhantes e ter a sua carteira de trabalho assinada, um contrato, seguro e direitos trabalhistas. Nessa situação ela também não pode lutar por melhores condições de trabalho, melhores salários, contratos mais vantajosos e seguros mais abrangentes. Está condenada a um mercado ilegal e sem regras.

Bianca Angel

O fato das nossas leis proibirem que empresas explorem o mercado do sexo pago não faz com que esse mercado deixe de existir, apenas o mantém na ilegalidade, e como todas as atividades ilícitas, essa também se torna mais violenta.

Apenas como fator de comparação, eu posso citar a proibição do álcool nos Estados Unidos, no início do século passado. Essa situação destruiu toda a indústria de bebidas que era regularizada, pagadora de impostos e seguidora das leis naquele país, tudo em prol de um sentimento moralista. Mas isso não eliminou as cervejarias e bares, apenas os levou para a clandestinidade, gerenciados por gansters que não pagavam impostos, não tinham regras e não seguiam leis, cada vez mais violentos, e tornando os criminosos cada vez mais influentes e ricos.

Se um cafetão cobra taxas abusivas e agride as acompanhantes, o que elas devem fazer? Se você acredita que elas devem denunciá-lo, precisa pensar mais uma vez. Não é tão simples assim. Imagine o que elas vão fazer depois… Será que conseguirão trabalhar para outra pessoa? E o pior, será que a denúncia terá algum resultado prático? Será que ela poderá sofrer represálias por fazer a denúncia?

Como o mercado não é legalizado, tudo pode acontecer. Com frequência se ouve falar em subornos que os cafetões pagam para serem deixados em paz pela polícia, e nas formas agressivas usadas para manter as garotas de programa trabalhando como eles querem. Não são muitas as que ousam desafiar esse sistema.

Claro que também existem agentes que não exploram as acompanhantes com taxas abusivas e nem são violentos, e não são poucos. Estes gostariam de se regularizar e pagar impostos, seguir regras e leis, melhorar as condições das acompanhantes que trabalham com eles, mas são impedidos de fazer isso pelas nossas leis moralistas ao mesmo tempo em que precisam se manter no mercado com concorrentes menos éticos citados acima.

Nessa realidade, são as mulheres, acompanhantes e garotas de programa, que pagam o preço alto da nossa moralidade, sendo subjugadas por um mercado ilegal e sem perspectiva de conseguirem mais dinheiro e melhores condições de trabalho. Nós, sociedade, as condenamos a isso.

Clayre Miller

Por outro lado, existem as acompanhantes que trabalham por conta própria e são independentes, cada vez em maior número, essas meninas investem em ensaios fotográficos caros, vídeos, anúncios em sites de acompanhantes, como o Garota Linda, e apartamentos bem localizados. Mas, obviamente os custos são bem altos, o que limita muito o acesso ao trabalho por conta própria. Muitas acompanhantes não conseguem e apenas sonham em chegar nesse nível.

Holanda, Alemanha, Áustria e Suíça são alguns dos países que já regulamentaram a prostituição e ganharam muito com isso, não apenas em impostos e geração de empregos em empresas legais que exploram esse mercado, mas também na qualidade de vida e de trabalho das mulheres que são acompanhantes e garotas de programa. Quando será a nossa vez?

Gabi

Por fim, preciso esclarecer que o Garota Linda não agencia garotas de programa, somos apenas um site de anúncios para acompanhantes. Condenamos a exploração abusiva das meninas e desprezamos a pedofilia. Se tornou comum ter que fazer essas afirmações sempre que se discute o mercado de prostituição, para evitar mensagens raivosas de moralistas violentos. Mas deixo claro que também somos contra o discurso moralista que impede que o nosso país legalize e regulamente o mercado do sexo pago. Desejamos que haja cada vez mais debate em torno desse tema.